Experimentar no teatro é sempre arriscado; mas o espírito vanguardista exige o risco. Talvez seja este a característica mais marcante no conjunto geral do espetáculo "Fenícias", tragédia de Eurípedes adaptada por Alexandre Dill e com criação coletiva do GrupoJogo de Experimentação CÊnica (que eu tenho enorme orgulho de integrar).
A começar pela opção do texto. "As fenícias" é uma obra que não é usualmente montada, talvez por também tratar da história de Édipo-Rei, consagrada pela escrita de Sófocles. Mas em tempos de afirmação cada vez mais forte das energias femininas, a visão da mulher, no caso, Jocasta, esposa e mãe de Édipo, consagram esta história da guerra pela cidade de Tebas em um contexto muito mais emotivo, e que expõe uma mazela que permanece viva nos dias de hoje: a guerra entre irmãos, entre povos de origem única.
Mas experimentar em tragédias gregas? E logo na estréia do grupo?
Realmente, a coragem move os homens. E o resultado é de extrema felicidade. Vejamos porque.
Montagens de textos clássicos do período helenístico costumam ser extremamente conservadoras no que tange elementos como figurino, utilização do espaço cênico, cenário, ritmo e, principalmente, símbolos. As vestimentas geralmente não fogem dos trajes que caracterizam o período histórico, e a concepção das montagens obedece, na maioria dos trabalhos, as características do teatro grego, com presença do coro (inclusive com corifeu), métrica textual, cenário e método de atuação. Sinceramente, melhor assim. É sempre frustrante ver um clássico ser estripado por concepções ambiciosas, movidas pelo tamanho do ego de diretores e atores esquizofrênicos.
Mas Fenícias foge à regra. O público toma seus lugares já em um ambiente de tensão, ao ver a imagem de Jocasta, no centro do palco, logo em frente ao Portal, tensionada por imensa angústia, enquanto um canto ritualístico eferve o ambiente, em ritmo e volume crescente. A estrutura narrativa é preservada; o brilhantismo e rima do texto são legítimos à exigência da tragédia, plenamente posta em prática pelos quatro atores se revelam em cena: Márcia Mello, José Henrique Lingabue, Igor Pretto e Alexandre Dill. E então o público descobre algo novo através da extrema precisão no uso dos símbolos e do espaço.
O cenário são de pequenos retalhos de panos, amarrados um a um, enfileirados verticalmente no palco, do centro às laterais. As endumentárias são tecidos leves, vermelhos, que parece trazer fluidez. Vê-se líquido, sangue derramado que se deslumbra por todo o espetáculo. A posição dos atores nunca é fixa, e a pontuação é perfeita, por vezes em movimentos rápidos e precisos, outros por leves inclinações pendulares, na disposição de palco quase sempre triangular. Os turbantes relembram a guerra enterna entre árabes. E os cordões que ligam Jocasta aos seus filhos, Polinices e Eteócles, nos marcam, castigam, com a lembrança de que tudo parte de uma mesma família, marcada pela dor de um destino amaldiçoado.
O coro canta (reparem, é grego?) em rituais musicados, com trilha sonora ao vivo, executada com cantos e percussão pelos próprios atores, baseada em ritmos de povos orientais. É quase como um ballet, por vezes um teatro Noh, por outras um algo grotowskiniano, onde o corpo conta tanto a estória quanto o texto.
As atuações são dignas de grandes elogios: Márcia Mello (ganhadora do prêmio de melhor atriz no XI Festival Pedritense de Teatro, logo na estréia da peça) é uma Jocasta doída, desesperada, a mulher que conta sua terrível história. Maninho (José Henrique Linbague), na sua estréia nos palcos, varia entre o forte Creonte e um velho Édipo. Igor Pretto (também estreante) é o valente Polinices, executando com perfeição e sincronia com o surpreendente Alexandre Dill uma verdadeira marcha ritmada antes da guerra. Digo surpreendente por que Alexandre vive o tirano Etéocles e, como num golpe de mágica, faz nascer um Tirésias divino, temível, que emerge do fogo de suas previsões.
Não vou me adentrar mais nas surpresas da peça: mas elas são muitas até o final do espetáculo, quando se vê um gigante Édipo envelhecido, cego, estripado pelo seu próprio destino. Mas, talvez envaidecido pelo júri do XI Festival Pedritense de Teatro, tenho a certeza de que a obra é bem acabada, tem fluidez, e que suas provocações merecem a atenção do público mais exigente que puder atingir. Foi vencedora dos prêmios de Melhor Espetáculo Adulto e Melhor Figurino, além de ter indicações em 9 das 11 categorias. E, o que é melhor: volta a cartaz, nos dias 3 e 4 de outubro, na sala 302 da Usina do Gasômetro. Vale a pena conferir, mas chegue cedo, pois a lotação do espaço é pequena.
PS: Participei da direção e executei o plano de luz, com algumas assinaturas pessoais a partir da idéia original passada pelo Alexandre. Gosto da auto-crítica, ela me dá motivação pra experimentar.
O Ale me alertou uma hora antes do espetáculo: "não vai ficar muito vermelho?" Na hora exitei, mas algo me movia a seguir esse pressentimento, esse clima de fogo, de inferno, de terra e céu rubros. O júri técnico gostou, comentou-se isso no bate-papo, o público que se manifestou também. Fiquei feliz com a indicação ao prêmio de melhor iluminação, mas, sim, Ale, acho sim que ficou vermelho a mais da conta.
